Blog/Ailton Villanova
17/05/2012 01:25
Num dia de inverno tenebroso, nasceu no bairro do Bom Parto, lá pelos idos de 1935, Maria Lindináuria Paixão, simplesmente Linda. Apesar do cognome, Linda era um bocado feia e o corpo também não lhe beneficiava em nada. O destino foi muito cruel com a coitada.
Aos sessenta anos, solteira e virgem, Linda ainda alimentava o sonho de arrumar nem que fosse uma amigação. O negócio era sair do caritó. Mas qual!
Depois de vinte e duas plásticas e mil tratamentos para rejuvenescer, a balzaquiana embocou de vez no desespero e pela primeira vez na vida pensou em suicidar-se. Estimulada por essa tresloucada ideia, procurou o babalorixá amigo intitulado Pai Dedé, residente nas alturas do Tabuleiro do Martins e expôs a maléfica idéia.
- Quer dizer que você pretende mesmo morrer?! – inquiriu o macumbeiro.
- Quero, Pai Dedé! Não tenho mais esperança nenhuma em arrumar um homem! Já fiz tanto esforço e... nada! Sem homem é melhor morrer!
Depois de pensar um pouco, o babalorixá opinou:
- Pelo que você está me contando, sua vida é mesmo um cocô de louro, pra não dizer coisa pior! Já que quer morrer, tudo bem! Suba no elevado do Cepa e pule lá de cima no meio do asfalto quando o trânsito de veículos estiver no maior pico...
- Pode não dar certo, Pai Dedé...
- Como não pode dar certo?
- É que posso não morrer e ficar paralítica pro resto da vida, em cima de uma cadeira de rodas.
O macumbeiro voltou a pensar e, em seguida, lascou lá:
- Já sei! Você vai morrer afogada! Corra para a praia da Avenida da Paz e quando chegar lá, pule daquela ponte que fica ao lado do Hotel Atlântico. Aí, você cairá dentro do Salgadinho. Se não morrer afogada, certamente morrerá toda poluída!
E Linda:
- Também não dá! Tenho horror a água!
Então o pai de santo emputeceu:
- Desse jeito você não quer morrer! Numa situação dessa ainda está escolhendo como quer esticar as canelas! Então, só tem um jeito: pegue um revólver e se mate com um tiro, pronto!
Os olhos da desesperada Linda brilharam:
- Taí, gostei dessa ideia! E eu nem tinha pensado nisso! Será que dói morrer de tiro?
- Dói porra nenhuma! Você assenta os cabelos ligeirinho!
- E se eu errar o tiro?
- É fácil, minha filha. É só acertar o coração!
- E onde fica exatamente o coração, Pai Dedé? Do lado esquerdo ou do lado direito?
Impaciente com a mulher, o babalorixá explicou:
- Preste atenção! Você pega o revólver e aponta para o bico do peito esquerdo...
- O bico?
- Sim, o bico! Aí, puxa o gatilho!
No outro dia o macumbeiro recebeu um telefonema do ProntoSocorro. A assistente social informava a ele que Maria Lindinauria Paixão encontrava-se internada naquele nosocômio com um tiro à altura do joelho.
Como entender o nenêm?
O bebedourense José Lucindo só conseguiu se casar quando completou 52 anos de idade, veterano pacas! Ainda assim porque a mulher que arrumou, de nome Estibórdia, era míope do último grau, mas que dava pro gasto.
O grande problema enfrentado pelo casal era a ausência de filhos. Segundo o médico da família, o defeito era de Estibórdia, que possuía um tal de “útero infantil”. Mas a mulher, que sempre sonhou em ser mãe, bolou a ideia de adotar um garoto. O marido deu o maior apoio.
Montado nessa opinião, o casal se mandou para a maternidade, onde foi recebido por uma gentil e simpática assistente social, que tratou de levá-lo ao berçário dos recém-nascidos expostos à adoção. Assim que bateu os olhos num bebezinho que estava logo na entrada, Estibórdia encantou-se por ele. Olhou para marido através das grossas lentes dos óculos e suspirou:
- Olhe só que criancinha linda! É um japonesinho! Vamos adotar este?
Lucindo não concordou:
- Tanto brasileirinho e você escolhe logo um japonesinho, mulher!
- E qual é o problema, meu amor?
- O problema é quando ele começar a falar a gente não vai entender nadinha do que ele disser. Escolha outro!
Vítima rubro-negra
O Agnoflézio ingressou na Polícia Civil naquela época em que para ser um “agente da lei” não se exigia muita coisa do sujeito. Bastava ser um bom caceteiro e matador sem muito escrúpulo. Agnoflézio não era nada disso. Muito pelo contrário, era um cara pacato e educado. Mesmo assim, entrou para a PC, porque era filho da empregada doméstica de um figurão da segurança pública. Sua primeira missão foi apurar responsabilidade num crime de morte, ocorrido no bairro da Pitanguinha.
- Quero que você anote direitinho tudo daquilo que constatar no local do crime, tá me entendendo? – orientou o delegado. – Depois, você me passa aquilo que viu, escrito num papel.
- Confie em mim, doutor!
E Agnoflézio se mandou pro local do crime, chefiando uma equipe de quatro agentes. Hora e meia depois retornou à delegacia, atrapalhado com um monte de papéis, que depositou na mesa da autoridade.
- Serviço feito, doutor!
E o delegado:
- E então a vítima foi alvejada com quantos tiros?
- Primeiro, doutor, não foi “vítima”. Foi “vítimo”. Segundo não foi “alvejado”...
- Ah, não foi não?!
- Não senhor. Ele continua preto. É um negrinho, não sabe? Só que ele agora está todo misturado de vermelho... do sangue que derramou!
O chefão é fogo!
Na repartição pública onde trabalhava o Prudêncio era tido como funcionário exemplar. Disciplinado, era o preferido do doutor Glicério, chefe da repartição. Por conta disso, vivia sempre ocupado, sem tempo, sequer, para respirar.
Um dia, ele chegou para trabalhar morrendo de dor de cabeça e não houve analgésico que desse jeito. Compadecido de sua situação, um colega sugeriu que ele fosse pra casa.
- Posso não, Israel! – respondeu ele. – Tenho muita coisa pra fazer...
E o colega:
- Aproveita que o chefe saiu! Você sabe que todos os dias, a esta hora, ele se manda e não volta mais!
E tanto o colega insistiu que o Prudêncio correu pra casa. Era perto do mei0-dia e ele teria um bom tempo para almoçar, descansar e voltar pro trabalho mais tarde, se quizesse. De modo que ele foi...
Quando estava se aproximando de casa, Prudêncio viu o doutor Glicério saindo de lá aos beijos e abraços com a sua (dele, Prudêncio), mulher. O que ele fez? Girou nos calcanhares e voltou correndo para a repartição. Aí, o colega Israel surpreendeu-se:
- Ôxi! Já de volta, rapaz? E você não tinha ido descansar em casa?!
- Tinha! Acontece que quando estava chegando lá, encontrei com o chefe, que já estava de saída!
- Da sua casa, ou da casa dele?
- Da minha casa! Então, dei meia volta e corri pra cá!
- Mas o que é isso, rapaz?! A casa não é sua? Era só você meter os peitos e entrar numa boa!
- Era? Falar é fácil. E minha situação aqui na repartição, como era que ia ficar, hein? No mínimo o chefe me daria 10 dias de suspensão por ter saído do expediente sem autorização...
16/05/2012 00:11
O protético José Lemos é um apreciador contumaz dos finais de tarde na orla marítima. Depois de umas carreirinhas na areia da praia, ele senta a bunda num banquinho da barraca do Bida, em Jatiúca, e manda pra dentro uma ou duas cervejinhas geladas, com tira-gosto de canelas de siri.
Outro dia, lá estava ele cumprido o ritual de sempre quando lhe surgiu pela frente um garotinho puxando um rottweiler pela corrente.
- Ei, moço! – chamou o menino. – Moço!
- O que você quer, meu filho? – indagou o protético.
- O senhor podia fazer um favor pra mim? – insistiu o garoto.
- Depende do favor. Diga qual é?
- O senhor podia fazer um agradozinho na cabeça do cachorro? É só passar a mão e pronto!
Para não ser indelicado com a criança, Zé Lemos resolveu afagar o animalão que, todo feliz, deu-lhe uma lambida na mão.
- Pronto! – exclamou o protético. – Seu cachorro agora está satisfeito. Você também está?
- Tô, sim. Brigado, viu?
Quando o garoto ia saindo com o animal, Zé Lemos indagou curioso:
- Ô meu filho, por que você mesmo não quis agradá-lo?
- É que eu o achei perdido ali na praia, e queria saber se ele mordia ou não...
Um favorzinho, apenas...
A maioria das pessoas não consegue entender como Edleusa Cristina ainda não provocou uma catástrofe, dirigindo o seu carrinho pelas ruas de Maceió. Ao volante, a jovem aí é uma temeridade.
O carro de Edleusa, um Corsa zerado, está mais amassado do que maracujá maduro. Volta e meia está colidindo com um poste de iluminação pública, ou batendo em algum muro que estiver no caminho.
Segundo as más línguas, a cédula de habilitação dessa criatura ela ganhou de um político amigo do pai dela, de grande prestígio no Detran.
Pois bem. Dias passados, no centro da cidade, um monte de gente se divertia adoidado em função da arenga de Edleusa com um guarda de trânsito, por sinal possuidor de incrível espírito esportivo, além de gozador ao extremo. Ela havia estacionado, na maior cara-de-pau, em cima da faixa de pedestres e nas barbas do guarda, que só fez colocar o apito na boca e dar uma trilada, de leve, no instrumento.
- O que foi? – reagiu Edleusa, chdia de direito.
O guarda riu e, muito tranquilo, respondeu:
- Nada não, dona. Apenas eu pediria a sua gentileza de ao menos abrir as portas do carro, a fim dos pedestres poderem atravessar a rua, pode ser?
Nem assim ela se mancou.
“Resolve logo, Manuel!”
Patrão muito bom, seu Olegário Pacheco resolveu dar um grande presente de casamento ao seu melhor funcionário, o português Manuel Barata. De modo que o chamou em seu escritório e comunicou:
- Olha Manuel, toda a sua lua-de-mel com a sua noiva Maria Núbia correrão por minha conta, tá bom assim? É o meu presente!
- Não precisa, seu Olegário. Basta sua consideração e amizade.
- Você merece, rapaz! É o meu melhor funcionário. Garanto que vou dar a você e à sua noiva e melhor festa de suas vidas! A lua-de-mel de vocês vai ser no camping!
E o português, todo encabulado:
- Pra que esses estragos, patrão? É muito luxo!
Bom. Manuel e Maria Núbia casaram. Pegaram a ordem de hospedagem e se mandaram pro camping. Chegaram lá, no finzinho da tarde. À noite, o casal recolhido e a noiva, maravilhada, não cansava de dizer:
- Ah, Mané, mas que coisa linda esse camping! Eu nem acredito que a gente está aqui!
E o noivo, igualmente entusiasmado:
- Mas acredite, mô amoire. Pode acreditaire!
Madrugada, e a Maria Núbia naquela lenga-lenga:
- Oh, Mané, continuo sem acreditar nessa maravilha!
Nesse momento, ouviu-se uma voz na barraca vizinha:
- Ô Manuel, seu filho duma égua, pelo amor de Deus dê um jeito de convencer essa mulher imbecil que tudo isso que ela está vendo é verdade! Todo mundo aqui tá a fim de dormir, porra!
E quem precisa de muletas?
Tocam a campainha na residência do cidadão chamado Emerevaldo, e sua mulher, dona Cleópatra, mandou a empregada atender. Não demorou muito, a criada estava de volta e a patroa indagou:
- Quem foi que chamou à porta, Maria?
- Foi um homem pobrezinho, com duas muletas...
Toda cheia de importância, madame Cleópatra determinou:
- Pode mandar ele embora! Aqui não precisamos de muletas!
Esmola grande...
O Heliogábalo entrou em casa cansadão, depois de um dia de trabalho estafante e foi observando, espantado: no quarto, roupas limpas e arrumadinhas, em cima da cama; no banheiro, estojo de barbear, loção e toalhas enxutas, imaculadas...
Depois do banho, ele foi jantar. Negócio pra barão. Tinha até champanhe! Terminado o rango, que foi caprichadíssimo, Heliogábalo deslocou-se até a sala, porque era hora de ver o jornal televisivo. Numa mesinha ao lado de sua poltrona predileta, o que ele viu? Um litro de uísque, copo de cristal, tira-gosto de camarão e uma caixa de charutos. Beliscou-se para ver se não estava sonhando. Doeu. Estava acordado e era verdade tudo aquilo que estava vendo. Aí, não aguentou e falou para a mulher, que não tirava os olhos dele:
- Tá bom, Dorinha. Diga logo quando é que a sua mãe vai chegar e quanto tempo ela vai ficar aqui!
Eita bolo danado!
Delegacia do 3° Distrito de Polícia da Capital.
O delegado Eduardo de Moraes Maia, mordido da vida, dava o maior esbregue no elemento que estava em pé na sua frente, o tal de Boca de Jacaré:
- Ô rapaz, como é que você teve a coragem de tratar uma senhora de idade daquele jeito?!
- Mas de que jeito, doutor?
Eduardo Maia estava a ponto de estrangular o cara:
- Ora, não me pergunte, seu canalha!
- Mas o que foi que eu fiz com a mulher, doutor? Não sei nem porque estou preso!
E o delegado, pra lá de indignado:
- Como uma pessoa pode ser tão cínica e insensível! Depois que a bondosa senhora lhe deu um pedaço de bolo, você teve o desplante de atirar uma pedra na janela da coitada... Os vizinhos viram tudo! Isso não se faz, seu infeliz!
- Ah, agora tô sacando, doutor! O que eu joguei na janela daquela senhora não foi uma pedra, não...
- Então o que foi, seu cretino?
- Foi o próprio pedaço de bolo! Depois que eu dei a primeira mordida no bolo, quebrei os dois dentes da frente... Olhaqui, ó. Tá vendo? Então, doutor, eu fiquei muito puto e joguei o bolo fora. Azar que pegou logo na vidraça...
14/05/2012 23:57
Qualquer semelhança com o anedotesco relativamente ao fato que vai abaixo contado, terá sido a mais absurda coincidência.
Seguinte:
Um certo artista plástico intitulado G.E. Prazeres viajava, de carro, do Recife a Maceió pelo litoral quando, a certa altura, lá pelas imediações de Maragogi cochilou ao volante e o veículo, que ele próprio dirigia, capotou várias vezes. Bastante avariado e com um ferimento sério no olho esquerdo, foi removido para um dos hospitais da capital alagoana, onde foi submetido a melindrosa intervenção cirúrgica.
Em menos de um mês Prazeres estava bonzinho, enxergando melhor que antes. E ficou muito agradecido cirurgião oftalmológico, o doutor Nairo Freitas.
Em razão disto, o artista plástico resolveu manifestar o seu profundo agradecimento ao Nairo, presenteando-lhe com uma obra realista, de sua autoria. E pintou um belíssimo exemplar de olho humano. Uma perfeição, fato que emocionou bastante o ilustre especialista.
- Gostou da surpresa, doutor? – indagou o artista, todo empolgado.
E Nairo Freitas, com a sinceridade que sempre o caracterizou:
- Gostei. É uma bela obra! Ainda bem que eu não o operei de hemorróidas!
Não sabia o caminho do céu!
Determinada congregação evangélica organizara uma campanha para a conquista de novos adeptos no Benedito Bentes, cujas palestras, a cargo de autoridades da igreja eram proferidas no centro social daquela comunidade. Cada dia, baixava lá um pastor e dava o seu recado. A programação vinha sendo realizada sem problema algum até que, o pinguço conhecido como Zé Pinguim, resolveu empanar o seu brilho.
Ocorre que o tal Pinguim encontrava-se escorado num poste, na entrada do residencial, quando parou ao seu lado um carrão preto, cujo piloto, um sujeito elegantíssimo, colocou a cabeça de fora e indagou:
- Caro senhor, por gentileza, onde é que fica o centro comunitário?
Zé Pinguim respondeu, com aquele bafo:
- É fácil. É só o senhor seguir em frente e dobrar a primeira esquina à direita. O prédio do centro social fica logo no começo.
O bacana agradeceu e se mandou. Ele era o pastor evangélico escalado para a pregação daquela noite.
Horas depois, Zé Pinguim vai passando pela porta do CSU, olha lá pra dentro e reconhece o sujeito que deitava falação para o público. Parou, ficou plantado, escutando o pastor falar e, aí, o referido fez uma pausa no seu discurso e disse:
- O prezado irmão pode entrar. É um prazer tê-lo conosco. Aqui, você vai ficar sabendo o caminho do céu!
O pinguço soltou uma risada, cuspiu de lado e respondeu:
- Caminho do céu coisa nenhuma! Tu num sabia nem o caminho do CSU, como é que agora vai saber o caminho do céu!
O negrão disfarçado
Figura bastante conhecida nas redações dos jornais alagoanos, e emissoras de rádio idem, o finado José Amaro foi um portocalvense que soube propagandear bem a sua terra. Querido de políticos e do povão, Zé Amaro chegou a ser vereador em sua terra. Um dia, pelo fato de ter trabalhado tanto por Porto Calvo, ganhou uma viagem de recreio a São Paulo. De morou-se por lá uma semana e voltou empolgadíssimo:
- Puxa, mas São Paulo é um cidadão!
Durante um mês inteiro ele não parou de falar um só instante nas belezas paulistanas. A esse respeito, chegou até conceder entrevistas no rádio e na imprensa. Numa dessas entrevistas, o também saudoso Sabino Romariz, indagou-lhe:
- Ô Zé Amaro, quando esteve em São Paulo você chegou a enfrentar algum problema de racismo?
Zé amaro respirou fundo e respondeu:
- Meu caro Sabino, senti, sim, um probleminha de racismo. Foi na Estação da Luz. Tinha lá um pessoal falando mal de preto... dizendo que preto era armada do cão...
- E você reagiu?
- Tá doido, Sabino? Eu fiquei foi na minha, bem quietinho, disfarçando pra eles não perceberem que eu sou preto!
Infeliz do ladrão!
Mal acabou de entrar no Restaurante Alvorada, no bairro do Prado, o Guadalniberto foi logo sendo abordado pelo amigo Vitânio:
- Ô bicho, eu estava preocupado com você! O que foi que aconteceu hoje de madrugada em frente a sua casa? Tinha um monte de carros da polícia!
- É verdade. Mas tá tudo legal!
- E qual foi a bronca, então?
- Minha mulher capturou um ladrão... por engano! Quase matou o infeliz!
- Não diga! A sua mulher é bem valente, hein?! Como é que foi? Conta!
- Aconteceu o seguinte... a mulher estava acordada, me esperando de porrete na mão, quando escutou alguém mexendo na fechadura e pensou que era eu. No que o ladrão botou a cabeça dentro de casa, levou a porrada – pou! Caiu estatelado no chão, botando pedaço de juízo pra todo lado!
- E o ladrão... morreu?
- Ainda não. Dizem que ele está entre a vida e a morte!
- E a sua mulher?
- Tá lá na cadeia. Ela foi autuada por tentativa de homicídio e eu aqui, torcendo, pro cara morrer!
O verdadeiro esbulho
Dias atrás, morreu no Recife, um velho amigo de infância, o Benedito Bernardino de Sena. Excelente caráter, bom pai de família, ele estava aposentado da antiga Chesf, vivendo das boas lembrança dos anos dourados do velho Bom Parto. Biu de Sena bem que tentou ser um grande atleta do futebol mas foi seu irmão caçula, o Déca, quem despontou como um dos maiores goleiros do bate bola suburbano.
Nos idos de 1960, ele e outros jovens prenhes de reputação futebolística formaram na equipe de amadores do Centro Sportivo Alagoano, entre esses o Cícero Cabeção, o Paulo Picolé, o Eugênio e o Derivaldo Targino. Eromir (o orgulhoso pai do ator global Erom Cordeiro), o mais jovem dessa turma, era o ponta esquerda titular do time principal do CSA.
Conta Eromir, que numa determinada partida válida pelo campeonato suburbano, o CSA amargou uma injusta derrota, fato que revoltou o dirigente Segismundo Cerqueira Filho. Sentindo-se lesado, ele gritava a plenos pulmões no vestiário do CSA:
- Esbulho! Esbulho! Fomos garfados!
A palavra “esbulho” insistentemente pronunciada pelo cartola, chamou a atenção do Biu de Sena. Quando Cerqueira acalmou-se, Sena chamou Eromir num canto e perguntou:
- Ô “Eroma”, que diabo é “esbulho”?
Eromir meteu lá uma pose de catedrático e mandou:
- Esbulho, meu caro, é o ato ou efeito de usurpar, espoliar, apropriar-se ilegalmente, entendeu?
Desse dia em diante, Eromir passou a ser para Biu de Sena o seu filólogo predileto.
13/05/2012 01:48
Beiços pintados de um incrível vermelho e toda perfumada, Maria Raquel parou na porta, encarou o Aristolino e falou decidida e secamente:
- Estou indo embora!
Perplexo, Aristolino agarrou-se ao portão sobre o qual se achava debruçado e retrucou:
- Você está louca, mulher?!
E ela fria, impassível, cruel:
- Não estou louca coisa nenhuma! Vou lhe deixar e pronto! Dá mais não, Ari...
- Não dá mais por quê, meu amor?
- Cansei. Só isso. Vou-me embora!
- Pra onde?
- Pra casa dos meus pais, na Ponta Grossa, ora! Não foi lá onde você me encontrou?
O domingo estava cinzento, o céu cheio de nuvens carregadas. O sábado inteiro tinha sido de chuva... e deles dois. Raquel e Aristolino haviam gastado todo o dia anterior rolando na cama, fumado incontáveis cigarros, depois de reiterados goles de rum com refrigerante. Havia um ano viviam juntos, numa boa. Nenhuma briga, a menor discussão. Aquela atitude da Raquel era incompreensível.
- Você endoideceu, Quelzinha! Só pode ter sido! Sair de casa, assim, sem quê e nem pra quê!
Cabeça baixa, soluço sufocado na garganta, o machão baqueou. As lágrimas rolaram pela cara abaixo.
- Se você me largar eu morro! – desabafou Aristolino.
- Morre nada! – duvidou a mulher.
- Morro! Eu me mato!
- Ah, Ari, drama pra cima de mim, não, tá legal?
- Tô falando, Quelzinha. Eu me mato!
Encostado no portão, Aristolino impedia a passagem da Raquel, que segurava uma valise. Poucas coisas dentro dela – algumas roupas, objetos de maquiagem... besteiras. Diante do portão parou um velho desdentado, carregando uma pequena cesta:
- Vocês vão querer amendoim torradinho? – perguntou.
Ninguém respondeu, ele insistu:
- É amendoim de primeira, meu patrão. Vai querer?
Aristolino decidiu:
- Não! Agora se mande!
* ****
Dentro de casa, a televisão ligada, todas as luzes acesas, um sabiá cantava. Plantada na soleira da porta, Raquel encarava o Aristolino:
- Sai da frente que eu vou passar!
E ele, lacrimoso:
- Saio não, Quelzinha! Fica, pelo amor de Deus!
- Fico não! Já disse que não fico? Não fico, pronto!
Na gaiola, o sabiá firmou-se nas canelinhas, baixou a cabecinha, Ari gemeu:
- Você quer me ver no caixão, não é?
Sarcástica, Raquel respondeu:
- Até que seria uma boa!
- Ah, meu Deus! Como você é insensível!
- Sai da frente pra eu passar, Ari. Daqui a pouco começa a chover de novo e eu vou me molhar toda, até o ponto do ônibus...
- Saio não. Por aqui você só passa se for por cima do meu cadáver!
- Além de dramático, você é cínico!
- E você é uma bandida!
- É a mãe! Bandida é a mãe!
Nesse momento a loucura apossou-se do Aristolino. Ele pulou no terreiro, esticou o dedão em direção a Raquel e acusou:
- Já sei! Você arrumou outro cara, sua puta!
- Puta é o cu da sua mãe! Me respeite, seu cachorro!
E ele, descontrolado, furioso, muito doido:
- Pensa que não sei? Você arrumou outro! Pra você eu não passou de um... um...
- ... corno!
- Corno?! Eu sou mesmo corno, Quelzinha?
- Você é quem está dizendo!
Aristolino aprumou-se e partiu pra cima da mulher. Pegou-a pelo pescoço, encostou-a na parede e berrou na venta dela:
- Fala! Fala, Quelzinha! Eu sou corno?
*****
O domingo cinzento empreteceu rapidinho. Então, a chuva desabou violenta. Cada pingo parecia uma flexada no chão.
Sufocada, cara arroxeada e com os olhos esbugalhados, Raquel balbuciou:
- É não, Ari. Você não é corno não, porque eu nunca fui puta!
Aristolino afrouxou a pressão e, patético, cara lavada de chuva, resfolegou:
- E então por que você está querendo me deixar, nojenta?
- Nojenta é a mãe!
- Responde, Quelzinha?
- O quê?
- Por que você está indo embora?
- Eu já lhe disse que cansei de você!
- Eu não vou deixar você ir!
- Vai! Vai, sim! Você não é meu dono!
- Sou! Sou seu dono, sim!
- Eu chamo a polícia!
- Pois chame a polícia!
Raquel abriu o bocão:
- Socooooorrrooo! Políííííciaaa!
Na casa ao lado assomou à porta um vizinho parrudão, que quis saber o que estava ocorrendo. Aristolino respondeu:
- Fique na sua, meu irmão! Aqui se trata de briga entre marido e mulher!
Raquel aproveitou o momento para reiterar o pedido de socorro:
- Me acuda, seu Galileu! Esse monstro está querendo me matar!
Num minuto a vizinhança inteira tomava conta da rua Santo Antônio, pedacinho acidentado do Vergel do Lago. E todos decidiram socorrer a Raquel.
Quando ela dobrava a esquina da rua esburacada e lamacenta, enfim a caminho da liberdade, ouviu o grito desesperado do ex-amor:
- Eu vou me matar, sua desgraçada! E a culpa será sua!!
Determinadíssimo, Aristolino, então, se preparou para cumprir a promessa, à moda dos suicidas mais radicais: encheu um copo de água com veneno de rato e despejou dentro do dito cujo uma enorme quantidade de vidro ralado. Em seguida, bebeu a inusitada e corrosiva mistura. Depoís, correu até o banheiro, pegou uma lâmina de barbear, cortou os pulsos e, finalmente, deu um tiro de revólver na própria cabeça.
Apesar de tudo isso o infeliz não morreu! Quem morreu foi a Raquel, quando atravessava a rua para pegar o ônibus que a levaria até a casa dos pais. Foi atropelada por um trator da prefeitura.
12/05/2012 00:21
O delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o Mamão, era titular da Regional de Novo Lino quando eclodiu uma onda de arrombamentos em residências, lojas e mercadinhos em toda aquela circunscrição. Mamão quase enlouqueceu. A deia que se tinha era a de que uma quadrilha terrível estava querendo desmoralizar a polícia alagoana. Mamão bateu na mesa e berrou:
- Desmoralização aqui, não admito! Eu pego esses bandidos ou não me chamo Mamão!
Em meio às “incessantes diligências” para a captura da suposta quadrilha, policiais lotados na região de Novo Lino puseram a mão num ladrãozinho baixinho, amarelinho, barbinha rala, canelinhas finas, zambeta, olhinhos de macaco e o levaram à presença da autoridade. E tiveram uma bela surpresa!
- Doutor, prendemos esse ladrãozinho fuleiro tentando arrombar uma casinha, ali na esquina... – falou o chefe dos policiais.
Mamão olhou com desprezo pro marginalzinho e disse:
- Não basta a perigosa e violenta quadrilha que anda me infernizando a paciência e ainda aparece você pra tirar onda com a nossa cara, seu moleque! O que era que você estava querendo levar da casa alheia, me diga, seu safado?
E o larápio:
- Nada não, autoridade. Eu tava só fazendo um “treinozinho” pro esquema pesado que bolei pra esta noite...
- “Esquema pesado pra hoje à noite”, hein?! Que “esquema” é esse, seu fiadaputa?
- Era mais um arrombamentozinho que eu estava pretendendo fazer nesta cidade. O local seria aquele armazém que fica por detrás da igreja...
- Você e quantos mais?
- Eu sozinho, doutor. E quem o senhor acha que vem fazendo esses arrombamentos por aqui?
Aí, Mamão deu um pinote da cadeira e gritou:
- Não brinque comigo, seu puto! Me diga quem são os seus parceiros!
O meliante baixou a cabeça e respondeu com humildade:
- Modéstia à parte, doutor, este seu criado aqui só trabalha sozinho...
O delegado quase foi à loucura:
- Não acredito. Vá logo me dando os nomes dos seus colegas da quadrilha, ou eu lhe quebro de pau!
- O senhor pode até me matar, tudo bem. Mas eu lhe garanto que sempre faço os meus roubos sozinho. Hoje em dia, doutor, a gente não pode confiar em ninguém. Tô certo ou tô errado?
Mamão foi obrigado a concordar com o ladrão.
Marido impaciente é a peste!
Em face dos insistentes pedidos de dona Valdete, sua esposa, o contabilista James Vital entrou no carro e foi levá-la ao shopping, onde a madame pretendia “fazer umas rápidas comprinhas”, conforme lhe havia assegurado. Ao descer em frente a uma das entradas do shopping, Valdete falou pro marido:
- Nego, me espere ali no estacionamento cinco minutinhos, tá?
Era um sábado, e como todos os sábados, James Vital tinha compromisso com a patota de amigos de sempre: religiosamente às 16 horas começava o bate bola no campinho ao lado da casa do Neilton Lopes, no Farol. Valdete sabia disso.
James havia parado no estacionamento do shopping cerca das 13 horas e ficou lá, aguardando pela boa vontade da Valdete. Calor danado, e ele transpirando por todos os poros, dentro do carro. Depois de hora e meia nesse suplício, James desceu do carro e foi lá dentro do shopping à procura da esposa. Não a encontrou em loja nenhuma. Retornou ao estacionamento e danou-se a buzinar. Até que o pessoal da segurança resolveu interferir no sentido de que ele parasse com aquele escândalo todo.
Perto das 19 horas, eis que surgiu na porta do shopping, toda feliz e sorridente, dona Valdete carregando uma montanha de pacotes. Logo atrás, um rapazinho, especialmente contratado por ela, empurrava um carro de mão, contendo outra montanha de embrulhos.
Madame Valdete parou junto de um dos seguranças, olhou para os lados e indagou com a cara mais inocente do mundo:
- Por acaso o senhor não viu um homem zangado, num Gol azul, passar por aqui um monte de vezes?
- É um gordinho de barba? – quis saber o segurança.
- É! É, sim, senhor. Viu pra que lado ele foi?
- Bom... a polícia levou ele preso, depois do escândalo que aprontou no estacionamento!
A perna doente era a outra!
Doutor Dioclério de Lima era um médico antigão que clinicava na região litorânea, entre Porto Calvo e Matriz do Camaragibe, lá se vão milhares de anos. Com o tempo, ele foi ficando surdo e sua miopia se acentuando cada vez mais.
Doutor Dió tinha mais de 90 anos quando faleceu. Até então vinha trabalhando duro, sem descanso, sem nunca ter se aposentado.
Certa vez atendeu a um paciente conhecido como Oséas do Rádio (um eletrotécnico residente em Porto Calvo), que havia sido atropelado por um caminhão canavieiro, perto de Matriz do Camaragibe. Nesse dia, doutor Dió estava clinicando lá. De modo que levaram a vítima até ele.
- Então, meu caro Oséas, dói quando eu apalpo aqui? – perguntou o velho esculápio ao acidentado.
- Dói não, doutor. Nadinha!
- E aqui?
- Também não!
Depois de examinar a perna do paciente durante mais de meia hora, doutor Dió respirou fundo e concluiu categórico:
- Se você não sente nada nesta perna, com certeza ela gangrenou! Vou ter que cortá-la imediatamente!
Oséas do Rádio apavorou-se:
- Cortar a minha perna, doutor?!
- Mas é claro! Você sofre um acidente danado de grave, quebra a perna em vários lugares e ela não dói! Só pode estar com gangrena!
- Mas o senhor está examinando a perna errada, doutor! A que está quebrada é a outra!
Ordem é ordem!
Natural de São Miguel dos Campos, Pedro Santana, que na adolescência ganhou o apelido de Pedro Doido, achou de ingressar na Polícia Militar, quando o processo de seleção para praças da corporação não exigia muita coisa do candidato. E Pedro Doido já chegou na PM complicando! Não fazia nem um mês que fora incorporado e já pegou oito dias de xadrez, por “desobediência hierárquica”.
A primeira coisa que se aprende no quartel é cumprir ordens sem questioná-las. Digo isso com a autoridade de quem lecionou na Academia da PM durante quase 20 anos. E Pedro Doido começou a entender de obediência hierárquica depois daquela cadeia. Entregou os pontos definitivamente quando o comandante da companhia onde servia o despachou para trabalhar durante quinze dias na limpeza dos banheiros e sanitários do quartel. Depois daí, ao designá-lo para tarefas mais leves, o tal comandante chamou ele num canto e indagou:
- Aprendeu agora, soldado?
- Aprendi, meu capitão!
Uma semana depois, olha o cara de volta à limpeza dos sanitários! Um dos cabos da companhia surpreendeu-se:
- De novo, soldado? Pensei que você tivesse tomado jeito! O que houve dessa vez?
- Não houve nada, cabo? Fiz tudo certinho como o sargento Pereira mandou. Não estou entendendo mais nada!
- E o que foi que o sargento lhe mandou fazer?
- Bom... segundo o sargento, o capitão me designou para trabalhar na oficina mecânica, com a recomendação específica de retocar a pintura do Jipe que estava à disposição do comando da companhia. Aí, eu perguntei pra ele: “qual a parte que eu devo pintar, meu chefe?”. Então, o sargento gritou no meu ouvido: “é pra pintar todas as partes! Todas!”
O sargento não mandou? Então, o soldado Pedro Doido pegou um pincel e uma lata de tinta e mandou brasa. Pintou a carroceria, os para-choques, os paralamas, os pneus, o volante, os assentos, os faróis e, naturalmente, todos os vidros, incluído o para-brisas.
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