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Brasil

Nível de água nos reservatórios é o menor em 10 anos

Situação só não é mais grave porque economia não está aquecida; para técnicos, novas usinas não resolvem a situação

Estadão 24 Novembro de 2012 - 19:01

Foto: Estadão

Usina de Itumbiara, entre Minas Gerais e Goiás, reservatório está com apenas 13,46% da capacidade

Usina de Itumbiara, entre Minas Gerais e Goiás, reservatório está com apenas 13,46% da capacidade

Em 11 meses, o nível dos reservatórios das hidrelétricas caiu para menos da metade nas principais usinas hidrelétricas do País. Trata-se do menor volume de armazenamento de água desde 2001, nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. Para alguns analistas, a forte queda nas represas é um indício do que vem pela frente quando grandes hidrelétricas a fio d’água (sem reservatórios) entrarem em operação, a exemplo de Belo Monte e das usinas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau).

Apesar das chuvas que começaram a cair em algumas regiões do País, os reservatórios continuam em nível baixo. Na semana passada, apenas o sistema Nordeste, que apresenta os piores níveis de armazenamento do País, conseguiu uma modesta melhora. O volume de água nas represas subiu de 32,4%, no dia 17, para 32,8%, na quinta-feira.

Nos sistemas Sudeste, Centro-Oeste e no Sul, a queda nos níveis atingiu 1 ponto porcentual no período, segundo relatório do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). No Norte, a queda foi de 0,6 ponto.

Um exemplo da situação delicada dos reservatórios é a Hidrelétrica de Itumbiara, localizada no Rio Paranaíba, entre os municípios de Itumbiara (GO) e Araporã (MG). A usina está com 13,46% de armazenamento em seu reservatório - isso significa apenas cinco metros acima da cota mínima da hidrelétrica.

Mas, de acordo com Marcelo Roberto Rocha de Carvalho, gerente da Divisão de Hidrologia de Furnas, controladora da usina, o volume de água em Itumbiara melhorou nos últimos dias. "Ela atingiu o menor nível em 1.º de novembro, com 9% de armazenamento."

Segundo ele, o pior resultado foi em 2001, quando a usina alcançou 7% de volume de água na represa. O executivo explica que, apesar do nível baixo, a operação da usina funciona normalmente, sem a necessidade de ampliar as medidas de segurança. "Uma usina é projetada para operar com qualquer nível de armazenamento, sem alterar os custos de manutenção e operação", completa o gerente do Departamento de Estudos Eletroenergéticos da Operação de Furnas, Luiz Edmundo dos Santos Ferreira.

Mas, com o volume baixo, é o ONS quem determina de que forma será feita a operação da usina. Itumbiara tem potência para gerar 2.100 MW, mas neste momento está produzindo quase metade disso (1.100 MW), afirma Carvalho. Outra usina de Furnas que também está com volume baixo é a Hidrelétrica de Marimbondo, localizada no Rio Grande, entre as cidades de Icém (SP) e Fronteira (MG). A usina, de 1.440 MW, está com 17,93% de armazenamento. No ano passado, no mesmo período, estava com mais do que o dobro de volume de água.

Um técnico do ONS explicou que, em alguns casos, é estratégico manter esses reservatórios com níveis mais baixos e fazer a regularização da bacia nas hidrelétricas que ficam acima, na cabeceira dos rios. No caso de Itumbiara, a represa é da usina de Emborcação, que está com 45,22% de armazenamento. "É preciso segurar nos reservatórios rio acima para não jogar água fora na última usina, nesse caso Itaipu", afirmou ele.

Previsões

Mas os especialistas do setor não veem com tanta naturalidade a queda expressiva de armazenamento das hidrelétricas. Na avaliação deles, não há risco de racionamento, mas a situação pode ficar mais complicada se o volume de chuvas não aumentar. As previsões do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para os próximos três meses não são muito animadoras para a Região Nordeste, que vive a maior seca dos últimos anos.

De acordo com relatório divulgado sexta-feira, a previsão para o período de dezembro de 2012 a fevereiro de 2013 continua indicando maior probabilidade de ocorrência de chuvas abaixo da normalidade (40%) para grande parte da Região Nordeste e extremo leste da Região Norte. No Sul, há maior probabilidade de chuvas acima do normal. Nas demais áreas do Brasil, não há uma tendência forte definida. Pode ficar abaixo, normal ou acima do normal.

São Pedro

Para Jerson Kelman, ex-diretor geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o mais grave da queda do volume de água nas represas é a sinalização sobre a capacidade de armazenamento das hidrelétricas. "Nossos reservatórios eram plurianuais. E não são mais. Isso é grave."

Antes, conseguia-se guardar água para suprir a demanda no período seco. Mas o ano de 2012, diz ele, trouxe preocupações, já que se gastou boa parte do reservatório dentro de um único ano.

A situação só não é pior porque o crescimento da economia está bem abaixo das previsões feitas no início do ano. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que até setembro o consumo do País cresceu 3,4% em relação a igual período do ano passado, sendo as maiores altas verificadas no Nordeste e sistema isolado do Norte, que inclui Manaus.

Para Kelman, sem novos reservatórios, o País ficará cada vez mais dependente do ‘humor de São Pedro’. Ele lembra ainda que os parques eólicos, uma das apostas do governo federal para diversificar a matriz elétrica, também funcionam de acordo com as variações climáticas. Mas elas complementam a produção hidráulica. É no período mais seco que as eólicas têm o maior potencial de produção, já que os ventos são mais fortes também nessa mesma época.

"Um reservatório tem capacidade de armazenar tanto água como vento. Se às 3 horas da manhã está ventando muito, você diminui a produção da hidrelétrica, guarda água e atende à demanda com o vento (eólicas)", diz ele. Mas, com as novas hidrelétrica a fio d’água - pré-requisito para obter a liberação ambiental para uma usina -, o País perde capacidade, avalia Kelman. Ele explica que a diferença do volume de água no período seco e no período úmido no Rio Xingu, onde está sendo construída a usina de Belo Monte, é de 25 vezes. No Sudeste, é de 5 vezes.

A solução para contornar essa fragilidade do sistema é acionar todas as usinas existentes no País, seja a gás, óleo combustível, carvão ou diesel. No mês passado, o ONS foi obrigado a iniciar a operação de cerca 11 mil MW de energia térmica - mais cara e poluente - para tentar poupar a água dos reservatórios.

Entre 18 de outubro e 16 de novembro, essas unidades geraram um custo estimado de R$ 393,9 milhões para o consumidor brasileiro, segundo a Aneel. Os valores serão repassados para a população no próximo reajuste tarifário das concessionárias. Se a produção continuar no mesmo ritmo e as chuvas não forem suficientes para recuperar os reservatórios, até meados de dezembro a conta já estará na casa de R$ 800 milhões.

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